A Mãe e o Mar

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Quando você vira mãe, todo mundo tem uma “frase feita” para você. Por exemplo: “ser mãe é padecer no paraíso”; “ser mãe é ter um coração fora do corpo”; “ ser mãe é Casas Bahia – dedicação total à você”, entre outras pérolas. A verdade é que quando se tem um filho, a vida vira de ponta cabeça. É uma experiência transformadora que iguala todas as mulheres, não importa idade, profissão, sonhos e desejos.

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E por falar em desejos, tão individuais, existem aquelas mulheres que querem acima de tudo estar no mar. Ao refletir sobre a minha experiência com relação à gravidez e o contato com o surf, decidi escrever sobre esse universo tão especial. Para isso, conversei com duas amigas surfistas que, ao se tornarem mães, enfrentaram uma sincera dificuldade de se afastar do mar; e outras mais para voltar.

Caroline vive na Austrália e em fevereiro deste ano deu a luz à Dylan, seu primeiro filho. Assim que descobriu que estava grávida resolveu parar de surfar “é uma opção pessoal, tive medo de me arriscar”. Apesar de não subir na prancha, nadou quase todos os dias ao longo dos 9 meses de gestação. Entre a gravidez e o nascimento do seu filho, Carol contabilizou 1 ano sem surfar: “Quando voltei, foi uma lição de humildade. Perdi massa muscular e senti dificuldade para varar a arrebentação. Tive que diminuir o ritmo.”

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Na foto: Caroline Jacomin em Uluwatu

Muitas vezes o retorno é frustrante, idealiza-se um momento perfeito, mas na prática pode não ser as mil maravilhas: o corpo está ofegante e mais pesadinho, e aquele mar que estávamos habituadas torna-se diferente.

Pouco a pouco, o corpo recupera leveza, equilíbrio e liberdade. Tudo no seu tempo e no tempo do seu filho. Não há regras, mas a disciplina nos exercícios é importante para retomar a forma e, quem sabe, ir além do que sempre foi.

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A conversa com a Natália abordou uma situação diferente. Ela vive na cidade de São Paulo, o que dificulta dividir o seu tempo entre as responsabilidades de ser mãe e estar próxima do mar. Hoje, seu filho Vinicius tem 8 anos e já anda de skate com a mãe. Antes dele, ela viajava para praia e passava até 9 horas por dia na água atrás de ondas. E, diferente da Carol, Nat surfou até o 5º mês de gravidez.

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Na foto:  Natalia Jakovac surfa no litoral norte de São Paulo

Todas as surfistas quando engravidam se perguntam: Quando devo parar de surfar? Me lembro a última vez que surfei grávida. Foi no 3º mês, era inverno e o mar estava frio e mexido. Precisei colocar roupa de borracha, fazer um bom aquecimento, me alongar… E todo esse movimento me incomodou. Fiquei pouco tempo na água, meu coração batia bem mais rápido do que o habitual, mas consegui pegar uma boa onda que me levou quase até a areia. Naquele momento decidi que era a hora de parar de surfar.

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Na foto: Bartira surfa sua primeira onda na Indonésia, e é clicada por um local.

Lidar com dois corações e com toda a mudança do corpo, muitas vezes é difícil; o seu corpo não é mais só seu, ele nutre e gera outra pessoa. Isso é muito intenso, e especialmente natural. Você não aprende a ser mãe, você simplesmente é. Ter a consciência de manter uma boa alimentação e não se privar jamais de exercícios físicos durante a gravidez, é fundamental para o futuro.

Quando o Vini nasceu, nasceu com ele outra Natália. Ela conta que “veio o filho, vieram outras responsabilidades”,  e o surf deixou de ser sua prioridade, apesar de continuar sendo seu esporte preferido. Passou a viajar menos e dedicar-se cada vez mais ao trabalho. Com isso, criou novos hobbys na cidade, já que era raro ter tempo e oportunidade para surfar.

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Na foto: Natalia pratica wakeboard.

E de volta lá para a terra da Carol, as surfistas da Gold Coast desenvolveram um projeto para dividir a responsabilidade de ser mãe e o amor pelo estilo de vida que o surf carrega. Elas criaram o “Clube das Mães”. A dinâmica é bastante organizada: cada uma paga uma taxa anual simbólica, e todas se encontram uma vez por semana na praia. Juntas, se revezam com seus bebês para conseguir surfar.

A ideia parece simples, mas a convivência com mulheres que buscam igualmente qualidade de vida perto do oceano e dos seus filhos, permite criar novas amizades e cumplicidade entre mães, mulheres e o esporte.

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Criar um filho nos revela mais fortes, de corpo e alma. Recomeçar é só um detalhe dentro de um mar de vida e experiências profundas. Cada mulher conta com a sua própria trajetória.

Agora, pensando bem, tem uma frase que pode até soar como uma daquelas pérolas da maternidade, mas na prática é bem verdadeira: “você pode sair do mar, mas o mar nunca vai sair de você”.

Fotos sem legenda: reprodução

Fotos com legenda: arquivo pessoal

por Bartira Bejarano