Caraça – da Serra ao Santuário

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Duas vertentes explicam muito bem o nome “Caraça”. A mais
antiga, dada pelo botânico Auguste de Saint-Hilaire, em 1816, diz que Caraça
seria o desfiladeiro existente na Serra do Espinhaço entre os Picos do Sol e
Inficionado. Isso porque Caraça, em tupi-guarani, significa desfiladeiro. A
outra explicação e a mais interessante, diz que Caraça seria o formato de um
rosto humano formado pela Serra. O Pico do Sol representaria a cabeça e o Pico
do Inficionado, o tronco do então gigante adormecido. Para esta vertente, Caraça
é a denominação, em português arcaico, de cara grande ou cara de gigante.

O gigantismo da Serra do Caraça não está só no nome, a formação
rochosa faz parte da Cordilheira do Espinhaço, considerada Reserva Mundial da
Biosfera por ser uma das regiões mais ricas em biodiversidade do planeta.
Compondo o cenário, bem aos pés da Serra está a bucólica cidade de Catas Altas,
distante apenas 120km de Belo Horizonte. Pequena e charmosa, a cidade preserva
casarões antigos e bem conservados, tombados pelo Instituto Estadual do
Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais, o IEPHA.

Descoberta em 1702 por bandeirantes, Catas Altas, assim como
várias outras cidades mineiras, pertenceu ao ciclo do ouro. Com o esgotamento
das lavras, a população passou a se dedicar à cultura de subsistência e mais
tarde, à exploração do minério de ferro que hoje sustenta a economia da região.
“Catas Altas está dentro do quadrilátero
ferrífero e desde o início sua economia foi voltada pra exploração mineral. Só
que, de uns tempos pra cá, surgiu o turismo, também como fonte de renda, o que
é muito bom. Os minerais te oferecem apenas uma safra e o turismo é uma forma
de garantir esses ambientes naturais e de poder explorá-los de forma
sustentável, por muitos anos”, explica o guia de turismo, Djaime Ferreira
Costa.

A riqueza e a diversidade de solos se refletem na cobertura
vegetal que envolve a região. Bem próximo à cidade, fica uma área conhecida
como Chapada do Canga, formação que tem despertado o interesse de vários
pesquisadores desde a segunda metade do século passado por conter,
principalmente, a presença de fósseis vegetais que confirmam a presença de uma
rica vegetação já na Era Cenozoica, há 60 milhões de anos. Além do mais, esses
depósitos de Canga, representam um sistema fluvial de grande importância. “A
rocha é porosa e por isso absorve muita água. O Canga é uma verdadeira caixa
d’água e por isso deve ser preservada,” alerta Djaime.

As formações rochosas também oferecem muita diversão. A
Serra do Caraça é considerada um pólo de escalada. São mais de 100 vias já
catalogadas, de todos os níveis, para todos os gostos: esportivas, móveis, big
wall e até boulders. “O Caraça é um paraíso pra quem curte o esporte, é a meca
dos escaladores,” explica o escalador e tatuador Alexandre “Caverna”. Para
aqueles que preferem caminhar, trilhas e travessias não faltam, existem mais de
vinte opções com ou sem o acompanhamento de um guia.

Mas a fama da região deve-se mesmo à um local de
espiritualidade e história, o Santuário do Caraça. Ele fica a poucos
quilômetros de Catas Altas, em meio à uma natureza preservada de grande
relevância mundial. A área foi a primeira unidade do Brasil a ser reconhecida
pela Unesco como uma Reserva da Biosfera da Mata Atlântica – RBMA. É também considerada
uma das mais importantes e visitadas Unidades de Conservação do Estado de Minas
Gerais. O Santuário do Caraça recebe, em média, 70.000 visitantes por ano, dos
quais, pelo menos, 17.500 ficam hospedados no local. A posição geográfica privilegiada, em uma área entre serras,
na transição de dois biomas: Mata Atlântica e Cerrado, faz com que o Caraça
tenha uma biodiversidade única, com um grande número de espécies que só existem
na região ou que estão ameaçadas de extinção. É caso do macaco guigó, também
conhecido como sauá e a anta, o maior mamífero terrestre da fauna brasileira.  Outro animal que desperta a atenção, não só
dos pesquisadores, mas principalmente dos turistas, é o lobo-guará, espécie símbolo
do Caraça. Há gerações, durante a noite, os lobos são ensinados a buscar um pedaço
de carne no pátio da Igreja. Atração imperdível que promete emocionar e ficar
na memória de quem visita o Caraça.

Construído
a partir de 1770 pelo Irmão Lourenço de Nossa Senhora, para aproximar o povo da
espiritualidade e oração, o Santuário é hoje uma Instituição Católica que abriga
um centro de peregrinação,
cultura, educação, turismo e ecologia. Parte desta história está no Museu do Caraça onde estão
expostas peças raras do período colonial. Antes, a construção abrigava uma
biblioteca com cerca de 20 mil exemplares de livros e registros históricos, um
rico acervo parcialmente destruído em um incêndio em 1968. A biblioteca fazia
parte do primeiro Colégio Interno e Igreja Neogótica do país. A Igreja Nossa
Senhora Mãe do Homens ficou intacta, mas o colégio, uma referência de ensino
para a elite brasileira, foi destruído pelo fogo e teve que interromper suas
atividades. Hoje, o Santuário do Caraça é um refúgio de paz e contemplação. A
construção e o que ela representa, aliada à natureza que cerca o local servem
de terapia para os visitantes. Para mais informações, entre no site www.santuariodocaraca.com.br .

Por Juliana Franqueira

Fotos: Divulgação