Terra dos cristais e da aventura

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Ela fica no estado de Goiás, a 230 quilômetros de Brasília, em um lugar do mapa geográfico onde qualquer um diria ser o coração do Brasil. Na Chapada dos Veadeiros pulsam elementos poderosos e importantes para a vida na Terra. Pra começar, a região guarda a maior porção contínua do cerrado brasileiro, um dos biomas mais ricos em biodiversidade do mundo. Segundo, é considerada berço das águas que alimenta as maiores bacias hidrográficas do país. Terceiro, está situada sobre o mais antigo patrimônio geológico do nosso continente, uma imensa placa de cristais de quartzo considerados amplificadores de energia.

O clima místico da Chapada se estende por vários municípios, mas o mais procurado pelos turistas é Alto Paraíso de Goiás que ganhou fama nos anos 70 quando vários exotéricos passaram a frequentar o local por causa destes cristais. Além do mais, Alto Paraíso está na linha do paralelo 14, o mesmo que passa por Machu Picchu, no Peru, outro ponto de muita força energética.

Para sentir esta vibração diferente, comece o passeio pelo Vale da lua, na Serra da Boa Vista. O local lembra uma paisagem lunar e levou 600 milhões de anos para se formar, resultado do atrito da areia que levada pela água em contato com as rochas, esculpiu pequenas crateras com diferentes formas, profundidades e texturas.

A bicicleta pode ser uma boa alternativa para conhecer a região, já que foi construída uma ciclofaixa com mais de 30 quilômetros ligando a cidade de Alto Paraíso ao povoado de São Jorge, porta de entrada para o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, outro importante atrativo turístico. A unidade de conservação foi criada em 1961, sob o governo de Juscelino Kubitschek, com o objetivo de proteger o cerrado brasileiro e garantir a preservação da fauna e da flora que nele vivem. Formado por uma vegetação rasteira, chão de areia, árvores secas e retorcidas com folhas grossas, essa paisagem muitas vezes passa despercebida. Só um olhar mais atento é que consegue enxergar a beleza um tanto exótica e a magnitude do cerrado. Um bioma que merece toda a atenção já que guarda formações vegetais endêmicas de uma riqueza biológica excepcional. Tanto é que, em dezembro de 2001, o parque nacional recebeu da Organização das Nações Unidas, a Unesco, o título de Patrimônio Natural da Humanidade. “O Cerrado, apesar de não ter sido galgado como patrimônio nacional e ter a mesma proteção que tem a mata atlântica e a floresta amazônica, ele é possivelmente até mais importante que esses dois biomas porque ele faz a ligação entre todos os biomas”, acrescenta Pedro Alberto Pignelli, ex-diretor da unidade de conservação.

Para circular pelo Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros é obrigatória a presença de um guia, função que Mauro Alves, um profundo conhecedor da vegetação do cerrado, desempenha com competência. “No cerrado, de cada dez plantas, sete são medicinais. Um bioma muito pouco explorado, mas de uma relevância muito grande.” explica Mauro que dedica seu conhecimento à cultura indígena. “O índio é assim, ele olha pra planta e fala: essa é boa pro pulmão, essa é boa pro fígado, essa é boa pro coração. Isso chama-se fitofisionomia,” conclui.

As trilhas dentro do Parque são cuidadosamente demarcadas e levam o visitante a pontos turísticos incríveis como: a Cachoeira do Garimpo com 80 metros de queda que desaguam em uma piscina natural gigante, tornando-se um dos pontos mais procurados para banho; o mirante do Rio Preto, um dos principais afluentes do Rio Tocantins e o Salto do Rio Preto, uma cachoeira de 120 metros de altura, considerada a paisagem mais famosa da Chapada.

Para quem curte atividades de aventura com graus de adrenalina diferentes, opções não faltam! São vários os roteiros oferecidos por agências especializadas. Um dos pacotes inclui a Fazenda São Bento que fica a nove quilômetros de Alto Paraíso. Dentre as inúmeras cachoeiras existentes na propriedade particular, a “Almécegas 1”, com 45 metros de altura, é perfeita para o cachoeirismo, ou seja, rapel em cachoeira. Também na fazenda, é possível encarar uma das maiores e mais bonitas tirolesas do Brasil, a “Voo do Gavião” com 850 metros de extensão e 100 metros de altura. Durante a descida, o praticante atinge uma velocidade de 55 quilômetros por hora e tem uma visão 360º que inclui as principais serras e morros da Chapada. Quanto à segurança, fique despreocupado pois a tirolesa foi certificada pelo INMETRO /ABNT em Sistema de Gestão da Segurança (SGS).

A região reserva aventuras para todos os gostos e estilos, para viver fortes emoções, uma boa dica é experimentar o canionismo que consiste em percorrer um rio, seguindo sempre o sentido da correnteza, driblando todos os seus obstáculos. De acordo com o empresário e canionista Ion Davi, a Chapada é apelidada de caniolândia. É um dos destinos ecoturísticos do Brasil com maior potencial para atividades de canionismo. Hoje, a região já conta com 22 cânions catalogados.

No rio Raizama, próximo ao vilarejo de São Jorge, a prática é realizada em um cânion de um quilômetro com cinco atividades de corda e muita natação. “Esse foi o primeiro cânion mapeado e grampeado aqui na Chapada, um dos precursores da atividade de canionismo aqui. A gente fala que este é um cânion escola porque a gente consegue colocar em prática várias técnicas do canionismo,” explica Ion.

O canionismo no rio Raizama é a certeza de viver fortes emoções. A palavra desistir está fora de cogitação já que o único jeito de sair do cânion é terminando a atividade. “É um cânion confinado com paredes fechadas. Uma vez que a gente entra nele não tem vias de escape, não dá pra sair dele a não ser ao final desse um quilômetro,” conclui Ion com ar despreocupado.

Definir a Chapada dos Veadeiros é fácil! É a mistura perfeita entre misticismo e ecoturismo. Uma região poderosa, marcada pela força da natureza, com muita água, vida e ainda por cima, magia. Uma paisagem onde tudo está em perfeita sintonia. Um lugar que nos acolhe e que literalmente, recarrega nossas energias.

Reportagem: Juliana Franqueira

Fotos: Marcelo Andrê